Um robô industrial que sai de linha no Brasil nem sempre vira sucata. Na oficina da ABB Robotics em Sorocaba, equipamentos chegam desmontados para reforma, recebem peças novas e voltam à operação, enquanto outras unidades abertas servem de material didático para técnicos em formação.
A cena foi mostrada a jornalistas durante visita à unidade, realizada na última semana a convite da ABB. Inaugurada em 2022 com 4.000 m², a instalação reúne oficina de robótica, showroom, centro de treinamento, áreas de montagem e teste de células, armazém e escritório.
O que sai dali não fica só no país. A estrutura também desenvolve e comissiona projetos destinados a Argentina e Chile.
Essa condição tem um nome dentro da companhia. O Brasil é um dos poucos países qualificados como centro de excelência em Consumer Industries e em Automotive, e um terceiro centro, voltado a pintura automotiva, está em formação.
Quem explica a escolha é Wagner Anai, gerente de projetos para o setor automotivo da ABB Brasil, com 34 anos de casa e passagem por aplicações da mineração ao segmento aeroespacial.
“A nossa grande sacada foi focar em valor agregado e soluções, aproveitando o que o brasileiro tem de melhor: a criatividade, o olhar técnico e crítico”, afirmou.
A venda direta convive com o canal de integradores, que recebem pré-avaliação de projeto, apoio na especificação e peças de reposição.
O robô chega montado e testado das fábricas da Suécia, dos Estados Unidos e da China, com rodagem contínua de pelo menos 24 horas antes de ser liberada para o cliente. Engenharia de linha, periféricos e definição de processo são feitos aqui.
O exemplo citado por Anai é direto. Quando um cliente aparece com a meta de produzir 50 carros por hora, é o time brasileiro que desenha a linha inteira e define como o processo vai rodar.
O tipo de encomenda mudou. “As fábricas precisam ser mais flexíveis, preparadas para diferentes plataformas e capazes de responder rapidamente a novas demandas”, afirmou Rodrigo Bueno, diretor da ABB Robotics para o Cluster South America.
Tecnologia madura chega pronta e é adaptada aqui

O atalho está nos centros globais de solução, mantidos na China e no Brasil. Aplicações já resolvidas em outros mercados são embarcadas e ajustadas ao cliente local, sem repetir a etapa de pesquisa.
“Se formos desenvolver algo para bateria elétrica, por exemplo, não precisamos começar do zero, pois a China já tem essa tecnologia madura, e nós a embarcamos e aplicamos no Brasil”, disse o gerente.
Em bens de consumo, o percurso é o mesmo: aplicações de alta velocidade e sistemas de visão chegam prontos para adaptação, sem espera por um ciclo local de desenvolvimento.
Os robôs móveis autônomos mostram a velocidade dessa curva. É uma linha nova no portfólio, e a operação brasileira já tem pelo menos dez pessoas capacitadas para aplicá-la.
A escala global também pesa no preço final. A China responde por 54% da demanda mundial, o que sustenta a fábrica mais automatizada da companhia e derruba o custo unitário, inclusive para o equipamento que desembarca no Brasil.
O dado tem confirmação independente. A Federação Internacional de Robótica (IFR) contabilizou 295 mil robôs industriais instalados na China em 2024, de um total mundial de 542 mil unidades.
Mil profissionais formados em três anos

O centro de treinamento é a peça que sustenta esse arranjo. Em três anos de operação, capacitou mais de mil profissionais, e recebeu no ano passado o controlador OmniCore, que roda ao lado do IRC5, ainda majoritário na base instalada brasileira.
A formação não fica presa ao prédio. A fabricante leva bancadas móveis às instalações do cliente e libera gratuitamente o RobotStudio, seu ambiente de simulação e programação offline.
A própria interface virou porta de entrada. Anai descreve os robôs colaborativos como equipamentos que uma criança poderia operar sem risco, já que a programação básica dispensa computador e linguagem complexa.
Boa parte do time técnico da ABB saiu daí. A empresa contrata estagiários e gente sem experiência prévia e os forma internamente, principal resposta que encontrou à escassez de mão de obra qualificada.
As portas estão abertas a universidades e escolas técnicas, e já houve contratação de visitantes do centro. O canal com o ensino técnico, que encolheu com a retração do investimento em educação, está sendo retomado.
Projetos em diversos segmentos industriais

O parque atendido é diversificado. Mineração, metalurgia, siderurgia, alimentos e bebidas e agronegócio, na parte de implementos, já têm aplicação robotizada da fabricante.
Em laboratórios, o fornecimento exige especificação de sala limpa e inclui fabricantes de bolsas de soro no Brasil. Cirurgia e contato direto com paciente estão fora do escopo, por exigência construtiva diferente e demanda considerada baixa.
O espaço para crescer aparece na comparação internacional. A densidade robótica da América do Norte chegou a 204 unidades por 10 mil trabalhadores da indústria, e a da Europa Ocidental, a 267. O mercado brasileiro, estimado pela ABB em cerca de 3.100 robôs, opera em outra escala.
A companhia não abriu quantas dessas unidades são suas nem o faturamento da operação local, e o número de mil profissionais capacitados é o mesmo já divulgado em agosto de 2025.
Há ainda um movimento societário no pano de fundo. A divisão de robótica da ABB foi vendida ao grupo japonês SoftBank por US$ 5,37 bilhões, com aprovação da Comissão Europeia em março e fechamento previsto para este ano.

