Uma assembleia geral de acionistas realizada na quarta-feira (10) no ginásio Docão, em Sertãozinho (SP), marcou o encerramento formal de um ciclo para a Nova Smar: a empresa de instrumentação e automação industrial votou as últimas pautas vinculadas à regularização do passivo da massa falida e reconduziu a diretoria por mais três anos. Liberta das restrições que impediam o acesso direto a contratos com estatais e a processos de certificação, a fabricante sertanezina apresentou um plano para quase triplicar o faturamento nos próximos anos.
A Smar foi fundada em Sertãozinho em 1974 e construiu, ao longo de décadas, uma posição consolidada na automação de processo industrial, com reconhecimento internacional a partir de sua atuação com a tecnologia Fieldbus. No auge, a empresa operava duas fábricas nos Estados Unidos e oito subsidiárias no exterior, com mais de mil funcionários.
A crise se instalou a partir de 2012, com investigações fiscais que levaram à penhora de faturamento e tornaram inviável o pagamento regular de credores e salários. Em 2013, veio o pedido de recuperação judicial; em 2015, a decretação da massa falida.
A saída encontrada envolveu a conversão dos créditos trabalhistas e de fornecedores em cotas de uma nova sociedade anônima fechada, modelo então pouco usual no ambiente corporativo brasileiro. Em março de 2026, a empresa concluiu a distribuição de R$ 28 milhões em ações para 765 credores da antiga Smar como quitação parcial dos débitos trabalhistas acumulados.
Um comitê gestor eleito pelos próprios credores assumiu a administração, com o engenheiro Libânio Carlos de Souza à frente desde o início. Nos anos seguintes, a gestão obteve certificações auditadas por organismos internacionais, retomou contratos relevantes e manteve exportações ativas para cerca de 70 países.
A Petrobras, que havia reduzido sua participação na carteira por conta das restrições jurídicas, voltou à condição de cliente mais representativo em 2025, respondendo por 6% do faturamento anual. A empresa fecha esse ciclo com 356 colaboradores e receita em torno de R$110 milhões por ano.
A assembleia no Docão chamou atenção também pela solução tecnológica adotada. Com 28 milhões de cotas emitidas e cada cota correspondendo a um voto, qualquer modelo de apuração manual seria operacionalmente impraticável. A empresa contratou a ARO Eleven para desenvolver um sistema de votação digital baseado em QR Code: cada acionista chegou ao ginásio com um código de identificação, recebeu um segundo código na entrada para acesso à sala virtual de votação e acompanhou em tempo real, pelo celular, o histórico de votos registrados e as pautas ainda pendentes.
O sistema registrou também a posição geográfica do dispositivo no momento de cada voto. Com 484 acionistas presentes, oito pautas foram deliberadas em três horas.
Nova fase e plano de crescimento para três continentes

Com o passivo judicial encaminhado, a diretoria reconduzida apresentou o plano estratégico batizado de “Reversão 30/70”, cujo objetivo é elevar o faturamento para R$300 milhões. O núcleo do plano é um programa chamado “Novos Brasis”, com três frentes simultâneas de internacionalização: os Estados Unidos, onde a empresa já mantém estrutura local; a Índia, onde está em implantação uma fábrica de sensores e placas; e o Leste Europeu como terceiro vetor de expansão.
A lógica, segundo Libânio, é replicar no exterior o modelo de atendimento que consolidou a posição da empresa no mercado interno.
O alicerce técnico dessa expansão é a participação da Nova Smar no OPAS (Open Process Automation Standard), padrão aberto para sistemas de automação desenvolvido e mantido pelo Open Process Automation Forum (OPAF), parte do The Open Group. A Nova Smar integra o fórum desde 2019 e conduz desde então um roadshow global para difundir o padrão e demonstrar suas aplicações em campo. Das 50 cidades previstas, 33 já foram visitadas em diferentes continentes, incluindo Ruanda, no continente africano, entre as mais recentes.
A empresa figurou como patrocinadora global no ARC Industry Leadership Forum de Singapura, em 2025, com apresentação sobre a convergência entre inteligência artificial, arquiteturas abertas e a realidade de fábricas digitais.
Para operacionalizar a proposta do OPAS em planta, a Nova Smar desenvolveu um software de orquestração de sistemas de automação com suporte de inteligência artificial. A ferramenta executa tarefas de configuração e integração que, pela via convencional, demandariam dias de trabalho de engenharia especializada. O produto já está disponível e figura entre os lançamentos previstos para a Fenasucro & Agrocana 2026.
Saneamento: mercado de escala com concorrência apenas estrangeira
Além das frentes de automação de processo, a Nova Smar preparou para a Fenasucro 2026 o lançamento de um produto voltado ao setor de saneamento. Batizado internamente de AC500, o equipamento é um controlador com inteligência embarcada para gestão de redes de distribuição de água, com funções de controle de pressão, regulação de vazão e detecção e estancamento de vazamentos em pontos específicos da malha.
A diferença em relação à linha anterior da empresa nessa área reside no nível de integração: o AC500 chega ao mercado como solução completa, não como instrumento isolado.
O contexto justifica o investimento. Segundo dados citados durante a assembleia, o índice médio de perdas na distribuição de água urbana no Brasil alcança 50% do volume produzido, proporção que coloca o setor como um dos maiores mercados potenciais para tecnologia de controle de processos no país. A empresa afirmou não ter identificado, até o momento, fabricantes nacionais com produtos de especificação comparável no segmento, colocando o AC500 em competição direta com fornecedores internacionais.
Do lado institucional, o departamento de governança coordenou toda a operação da assembleia e consolidou durante a gestão anterior um conjunto de instrumentos que inclui código de ética e conduta, programa de integridade e relatório de ESG.
O setor também administra os benefícios fiscais da Lei do Bem e da Lei de Informática, que financiam um laboratório interno de inovação com interface junto a universidades e centros de pesquisa, incluindo um projeto de pós-doutorado na USP com foco em controladoria aplicada a empresas de tecnologia industrial.
O próximo marco público da Nova Smar é a Fenasucro & Agrocana 2026, marcada para de 11 a 14 de agosto no Centro de Eventos Zanini, em Sertãozinho. Segundo a empresa, delegações de 40 representantes do OPAF de diferentes países estarão presentes na feira, incluindo visitantes do Japão, Europa e Estados Unidos.
A Nova Smar prevê ainda, em parceria com a norte-americana CSI, o lançamento de um produto desenvolvido conjuntamente para o setor de energia.
Com informações de Jota Show.

