Equipes de manutenção que hoje dependem de sensores fixos instalados em motores e compressores devem ganhar, até junho de 2028, um assistente robótico capaz de circular pela planta e inspecionar esses mesmos ativos. O desenvolvimento tem financiamento aprovado de R$ 120,1 milhões do BNDES.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou a operação em 4 de agosto de 2026, com recursos do programa BNDES Mais Inovação. A beneficiária é a Tractian, sediada em São Paulo, que fabrica sensores e sistemas de manutenção industrial.
O dinheiro vai para pesquisa, desenvolvimento e inovação. O projeto prevê uma nova geração de assistentes robóticos voltados à inspeção e à manutenção preditiva de equipamentos industriais, combinando robótica avançada, sensoriamento de alta precisão e inteligência artificial para antecipar falhas.
A execução vai até junho de 2028. Nesse período, a empresa prevê contratar 421 funcionários já na fase de implantação, com manutenção dos postos após a conclusão dos investimentos. Do total, 150 vagas são destinadas a profissionais de pesquisa e desenvolvimento, entre engenheiros, cientistas de dados, especialistas em inteligência artificial, desenvolvedores de software e profissionais ligados à robótica.
O plano de investimentos cobre a equipe própria de pesquisa e desenvolvimento e a aquisição de componentes e equipamentos necessários às atividades previstas. A previsão é depositar ao menos 20 patentes de invenção ao longo do projeto.
“O financiamento acelera uma linha de pesquisa que estamos construindo há anos: usar robótica, sensoriamento e IA para elevar o nível de proteção dos ativos mais críticos da indústria”, afirmou Gabriel Lima, COO e cofundador da Tractian.
Para o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, o projeto reúne diferentes tecnologias aplicadas à inspeção e à manutenção industrial e prevê a contratação de profissionais qualificados para sua execução.
A companhia tem operações no Brasil, no México e nos Estados Unidos e atende mais de mil plantas industriais, além de hospitais, shopping centers e operações do agronegócio.
O que muda na inspeção de campo
O portfólio atual da empresa se apoia em sensores fixados no ativo, que transmitem dados de vibração e temperatura. O projeto financiado inverte parte dessa lógica, porque o equipamento passa a se deslocar até a máquina.
Os robôs devem circular pelas instalações realizando monitoramento contínuo, com sensores embarcados para analisar motores elétricos, compressores, esteiras transportadoras e outros equipamentos de uso corrente na operação, alertando as equipes de manutenção.
Em planta industrial, ativos de baixa criticidade e pontos de difícil acesso costumam ficar fora do monitoramento contínuo por causa do custo de sensor e de cabeamento. É esse recorte que um inspetor móvel tende a alcançar.
Nem o banco nem a empresa informaram o formato do equipamento, a autonomia, o grau de proteção ou eventual certificação para áreas classificadas.
Crédito público como vetor de automação
O Mais Inovação foi criado em 2023 para financiar inovação e digitalização. Em maio de 2026, o BNDES elevou o orçamento do programa para R$ 12 bilhões no ano, acréscimo de R$ 4,8 bilhões sobre o valor destinado inicialmente. Desse total, no mínimo R$ 840 milhões vão para as regiões Norte e Nordeste e R$ 1,1 bilhão para financiar máquinas industriais.
As condições também mudaram. A remuneração básica do BNDES na aquisição de máquinas e equipamentos caiu de 2,5% para 2% ao ano, e as faixas da Taxa Fixa Composta passaram a ser definidas conforme o porte do cliente final.
Entre 2023 e 2025, o banco aprovou R$ 35,6 bilhões para inovação, volume que supera a soma dos onze anos anteriores, de R$ 34,8 bilhões. No financiamento direto, o ticket mínimo do programa é de R$ 20 milhões, caindo para R$ 10 milhões no Norte e no Nordeste.
Este é o primeiro financiamento público da Tractian, que até então se capitalizava por rodadas de investimento de risco, conforme apurou o portal Startups. Em agosto de 2026, a Yamaha obteve R$ 15 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para automatizar a fábrica de motocicletas em Manaus.
A densidade robótica brasileira segue abaixo da média mundial. A International Federation of Robotics (IFR) contabilizou 542 mil robôs industriais instalados no mundo em 2024, mais que o dobro de dez anos antes, com a Ásia respondendo por 74% das novas unidades e o parque global superando 4,6 milhões de equipamentos.
A contratação dos 421 profissionais começa na fase de implantação. Em processo separado das vagas de pesquisa previstas no acordo, a Tractian mantém aberto até 21 de agosto o edital da segunda edição de seu programa de trainee comercial.

