Instrumentistas e engenheiros de plantas de minério de ferro da Vale vão herdar, nos próximos anos, o pacote de sensores, câmeras e algoritmos testado em Itabira (MG) desde 2024. A mineradora formalizou nesta terça-feira, 11 de agosto, a ampliação da parceria com a ABB para replicar a tecnologia em outras unidades do país.
O acordo prevê a replicação gradual das soluções da Usina Modelo Conceição II em outras plantas de beneficiamento. A unidade de Brucutu, em São Gonçalo do Rio Abaixo (MG), já está em fase de implantação e deve entrar em operação no início de 2027.
A ABB segue como integradora dos sistemas, papel que a companhia já exercia no projeto de Itabira. A função inclui conectar sensores, controladores e plataformas de fornecedores diferentes em uma camada única de dados, sem prender a operação a um fornecedor exclusivo de automação.
O que Itabira já provou
O piloto de Itabira, segundo a própria Vale, levou um ano e meio para ficar pronto e elevou a capacidade da planta de 9 milhões para 11,2 milhões de toneladas por ano. A produtividade subiu 25%, a produção de minério premium para redução direta cresceu 40% e as perdas de ferro no rejeito caíram 26% desde 2024.
A escala do projeto vai além do que o comunicado desta semana detalha. A companhia automatizou cerca de 7.300 instrumentos de campo e instalou mais de 100 câmeras de monitoramento, além dos sistemas que acompanham as mais de 400 variáveis citadas no texto distribuído nesta terça.
O ganho também veio da automação de motores, válvulas e outros equipamentos elétricos e mecânicos, com soluções de operação remota que incluem braços robóticos. A Vale registra ainda 92% de reaproveitamento da água usada no processo, depois de etapas de filtragem.
Desde a implementação da tecnologia, a unidade não registrou nenhum acidente de trabalho, conforme dados que a própria Vale apresentou na inauguração da planta, em junho. Os 122 operadores, instrumentistas e líderes da unidade foram treinados para o novo modelo, em um programa que já soma mais de 2.800 horas de capacitação.
Brucutu é o próximo teste real

Brucutu tem escala e características minerais diferentes das de Conceição II, o que deixa em aberto se os ganhos observados em Itabira se repetem. Isso ainda não aconteceu em Brucutu. Coberturas da inauguração de junho também citaram a mina de Vargem Grande, em Nova Lima (MG), como candidata a receber o modelo depois, unidade que o comunicado desta semana não menciona nominalmente.
Segundo Carlos Medeiros, vice-presidente de Operações da Vale, “a Usina Modelo mostrou que as novas tecnologias, como inteligência artificial, melhoram a segurança dos empregados e aumentam a produtividade, a eficiência operacional e a qualidade na mineração”. O executivo afirma que o aprendizado de Itabira vai ampliar a previsibilidade dos processos e reduzir a exposição de pessoas a atividades de risco nas próximas plantas.
Afirma Joachim Braun, presidente da Divisão Process Industries da ABB: “com base no sucesso alcançado em Conceição II, estamos criando uma estrutura para implantar uma abordagem consistente de automação, eletrificação e digitalização em múltiplas operações”.
Setor mineral eleva orçamento para IA
O setor mineral brasileiro fechou o primeiro trimestre de 2026 com faturamento de R$ 77,9 bilhões, alta de 6% ante o mesmo período do ano anterior, aponta o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). A entidade projeta US$ 76,9 bilhões em investimentos no país entre 2026 e 2030, dos quais US$ 21,3 bilhões para minerais críticos.
Estimativas do setor apontam que mineradoras devem destinar mais de 20% de seus orçamentos adicionais a recursos de inteligência artificial neste ano. A digitalização, porém, segue desigual: operações de pequeno e médio porte enfrentam mais dificuldade para integrar dados de campo a sistemas corporativos, o que tende a concentrar projetos como o da Vale nas grandes mineradoras.
O próximo teste de escala será Brucutu. Diferente de Itabira, a unidade de São Gonçalo do Rio Abaixo processa um perfil de minério distinto, e será só com a planta em operação, no início de 2027, que ficará claro se os ganhos do piloto se repetem fora do ambiente controlado da Usina Modelo.

