Joinville vai receber a primeira planta industrial da Schomäcker fora da Alemanha, empresa com 145 anos de história no segmento de molas e componentes para veículos pesados. O investimento inicial na unidade catarinense é de R$ 205 milhões, com plano de expansão que pode elevar o aporte total a R$ 522 milhões até 2031.
A Schomäcker Federnwerk, com sede em Melle, no noroeste da Alemanha, concentrava até agora toda a sua produção em solo europeu, exportando componentes para mais de 50 países a partir de uma única planta. Fundada em 1880, a empresa processa cerca de 18 mil toneladas de aço por ano e fornece molas e componentes de suspensão para montadoras como Mercedes-Benz, Volvo e Renault, além de atender setores como mineração, agronegócio, defesa e logística pesada.
A decisão de abrir a primeira unidade fora do continente europeu aponta para um reposicionamento estratégico da empresa em direção ao mercado latino-americano, com o Brasil como plataforma produtiva e de exportação regional.
O acordo que formaliza o investimento foi firmado no início de maio, por meio de um termo de cooperação assinado entre o sócio-administrador da Schomäcker, Joachim Henrich Wilhelm Sommer, e o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello. O documento estabelece o apoio institucional do governo estadual à implantação da planta, com atuação da agência Invest SC em frentes como facilitação logística e conexão da empresa com potenciais fornecedores locais.
A escolha de Joinville para sediar a operação não é casual. A cidade é o maior polo metalmecânico e eletroeletrônico do Sul do país, com um parque industrial consolidado nos segmentos de fundição, estamparia, usinagem e automação. O Perini Business Park, endereço da futura fábrica, é um complexo empresarial de referência no estado, com infraestrutura voltada a indústrias de médio e grande porte que operam com padrões elevados de controle de processo e integração tecnológica.
Tecnologia própria que reduz o tempo de produção
O ponto que mais chama atenção no anúncio do investimento é a especificidade tecnológica da operação. Segundo Sommer, a Schomäcker desenvolve internamente as próprias máquinas utilizadas no processo de fabricação, e a tecnologia empregada permitiu reduzir o tempo de ciclo de produção de uma peça de três horas para três minutos.
Essa não é uma afirmação genérica de eficiência: trata-se de uma compressão de 98% no tempo de ciclo, resultado direto da integração entre automação de processo, equipamentos proprietários e controle digital da linha de produção.
O ganho operacional é característico do que o setor denomina Indústria 4.0 em aplicação real: não apenas a adoção de sensores e sistemas conectados, mas a reengenharia profunda do processo produtivo a partir do controle de dados e da automação intensiva.
Para uma fábrica de molas de aço de alta resistência, onde as variáveis metalúrgicas como temperatura, tensão residual e geometria são críticas para o desempenho do componente, manter esse nível de padronização em velocidade de ciclo drasticamente menor exige sofisticação considerável em sistemas de medição e controle de qualidade integrados à linha.
A unidade de Joinville vai operar com esse mesmo modelo, o que indica que a demanda por profissionais de automação industrial, mecatrônica, manutenção de máquinas CNC e sistemas de controle será relevante desde o início das operações. A previsão inicial é de 105 empregos diretos, com capacidade de expansão significativa ao longo da primeira fase.
Um investimento em duas etapas e perspectivas de receita expressivas
O plano financeiro da operação está dividido em duas fases. Na primeira, o aporte de R$ 205 milhões vai cobrir a construção da planta, aquisição e instalação de equipamentos e estruturação operacional.
A projeção divulgada pelo governo de Santa Catarina é de que essa primeira fase gere aproximadamente R$ 339 milhões em receitas, atendendo tanto clientes do mercado brasileiro quanto demandas de exportação a partir da nova base catarinense.
Na segunda etapa, prevista para os cinco anos seguintes, a empresa estima investir mais R$ 317 milhões na ampliação da planta, o que deve praticamente dobrar o quadro de colaboradores em relação ao número inicial. O investimento total projetado até 2031, somando as duas fases, chega a R$ 522 milhões.
Para o ecossistema industrial do Norte de Santa Catarina, a chegada de um fornecedor com esse perfil representa oportunidades concretas para a cadeia local. Empresas de automação, distribuidores de componentes para sistemas de controle, prestadores de serviços de manutenção preditiva e integradores de sistemas industriais tendem a ser demandados à medida que a planta entra em operação e amadurece sua base produtiva.
A própria exigência de Invest SC em conectar a Schomäcker com fornecedores catarinenses sinaliza que o Estado aposta no efeito multiplicador do investimento para além dos empregos diretos anunciados.
Os clientes históricos da empresa no mercado europeu abrangem fabricantes de caminhões, ônibus e implementos rodoviários, além de aplicações em veículos para mineração, agronegócio, transporte de cargas especiais e até competições off-road de alto nível. A operação brasileira deve atender parte dessa mesma base de montadoras presentes no mercado nacional, além de prospectar novos contratos com fabricantes da América do Sul, aproveitando a posição geográfica de Joinville e a infraestrutura logística de Santa Catarina.
O cronograma de início das obras e da entrada em produção da unidade ainda não foi detalhado. A segunda fase de expansão está projetada para ocorrer ao longo dos cinco anos seguintes à entrada em operação da planta inicial, com o volume de investimento e a ampliação do quadro de pessoal condicionados ao desempenho comercial da operação.

