O Brasil registrou o melhor resultado de sua história na RoboCup, considerada a maior competição mundial de robótica e inteligência artificial. Na edição 2026, disputada entre 30 de junho e 6 de julho em Incheon, na Coreia do Sul, a equipe RobôCIn, do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco, conquistou o vice-campeonato mundial na divisão de elite da categoria Small Size League.
No mesmo torneio, a equipe Titãs da Robótica, do Instituto Federal do Espírito Santo em Colatina, chegou ao terceiro lugar na Simulação de Futebol 2D, também a melhor colocação já obtida por um time brasileiro na modalidade.
A RoboCup reuniu mais de três mil participantes de 45 países e é organizada anualmente pela RoboCup Federation desde 1997, com o objetivo declarado de usar o futebol de robôs como problema de referência para avançar pesquisas em inteligência artificial, visão computacional e sistemas autônomos. O evento é dividido em ligas que vão do futebol simulado a robôs humanoides, cada uma com exigências técnicas distintas de hardware, software e coordenação multiagente.
Equipes universitárias brasileiras vêm ganhando espaço gradualmente na competição ao longo da última década, mas os resultados desta edição marcam um salto de patamar.
O avanço do RobôCIn na divisão principal

O RobôCIn foi criado em 2015 por doze estudantes e dois professores do Centro de Informática da UFPE, sob coordenação da professora Edna Barros. Ao longo de dez anos, o grupo acumulou mais de quinze premiações em competições nacionais e internacionais, com participações regulares na RoboCup desde 2019. Até a edição de 2025, a melhor marca da equipe na divisão A da Small Size League, considerada o nível mais competitivo da categoria, havia sido o terceiro lugar.
Nesta edição, o time superou essa marca ao ficar em segundo lugar entre as dez equipes que se qualificaram para a divisão A, de um total de 27 inscritas. O RobôCIn enfrentou diretamente competidores da Alemanha, da China e do Japão e foi a única equipe das Américas presente na fase final da categoria. Segundo a professora Edna Barros, a equipe também obteve o quinto lugar na Simulação 2D e estreou na Liga Humanóide com o nono lugar, modalidade em que os robôs possuem corpo e sensores que buscam reproduzir capacidades humanas de percepção e movimento.
De acordo com a coordenação do grupo, o custo médio de um robô da categoria Small Size League varia entre 15 mil e 30 mil reais, enquanto um robô humanoide de competição internacional pode custar entre 80 mil e mais de 250 mil reais, dependendo da complexidade mecânica e dos sensores embarcados. A professora explicou que parte das técnicas de navegação e planejamento de trajetória desenvolvidas para os robôs com rodas da SSL vem sendo adaptada para os projetos de robôs humanoides, o que abre espaço para aplicações futuras em logística e em atuação em ambientes hostis à presença humana.
O terceiro lugar do IFES Colatina na Simulação 2D
O campus de Colatina do IFES levou duas equipes à competição. A Titãs da Robótica, formada pelos estudantes João Ricardo Mattedi Cetto e Henrique Frisso Oliveira, do bacharelado em Sistemas de Informação, disputou a categoria Soccer Simulation 2D e chegou à semifinal, onde perdeu nos pênaltis para a equipe japonesa Hélios. A colocação final, terceiro lugar geral, superou o resultado histórico anterior da instituição na modalidade. A competição foi vencida pela equipe chinesa Yuchan, com a Hélios em segundo lugar.
A segunda equipe do campus, batizada de Ligeirinho e formada pelos estudantes Gabriel Dominicini da Fonseca, Edgar Alves Arrigoni e Bernardo Schmiedel Raymundo, do curso técnico em Informática para Internet, disputou a categoria RoboCupJunior Rescue Line e terminou em décimo segundo lugar entre 27 equipes participantes. O grupo já havia conquistado o quinto lugar mundial na RoboCup Junior de 2024, na Holanda, e o título da competição internacional SuperTeams em 2025, em parceria com uma equipe canadense.
Os dois times do IFES contaram com a orientação dos professores Giovany Frossard Teixeira e Julio Cesar Goldner Vendramini, respectivamente, e vinham de uma temporada de preparação iniciada ainda no final de 2025.
O que os resultados representam para a formação em engenharia
Resultados como os desta edição da RoboCup têm relevância que ultrapassa o campo esportivo da competição. Equipes como o RobôCIn e as do IFES funcionam, na prática, como polos de formação avançada em robótica, inteligência artificial aplicada e sistemas embarcados, áreas diretamente conectadas ao mercado de automação industrial e de manufatura avançada. Estudantes que passam por esses projetos costumam seguir carreira em desenvolvimento de sistemas autônomos, integração de sensores e controle de movimento, competências cada vez mais demandadas por fabricantes de robótica industrial e por integradores de sistemas.
O momento também coincide com um ciclo de maior atenção institucional à robótica no país, impulsionado por programas como a Nova Indústria Brasil, que direciona recursos do BNDES e da Finep para modernização industrial e para tecnologias como inteligência artificial e automação. Ainda assim, o Brasil segue distante de potências como a China em densidade de robôs por trabalhador, o que reforça o valor estratégico de equipes universitárias capazes de competir de igual para igual com centros de pesquisa de países tecnologicamente mais maduros.
Para o RobôCIn, o próximo desafio já está definido. Segundo a professora Edna Barros, a prioridade da equipe para o próximo ciclo é aprimorar o desempenho na Liga Humanóide, categoria em que o grupo tem apenas um ano de preparação e ainda busca consolidar a base técnica necessária para brigar por posições mais altas nas próximas edições.

