A Valmet completou em fevereiro de 2026 o primeiro ano de execução no Projeto Sucuriú, da chilena Arauco, e encerrou a fase inaugural com cerca de 70% de progresso na construção civil e mais de 3,5 milhões de horas trabalhadas.
Com esse marco estabelecido, o projeto entra agora na etapa de montagem eletromecânica, considerada a fase de maior complexidade operacional da obra. A planta está sendo erguida no município de Inocência, no Mato Grosso do Sul, a cerca de 50 quilômetros do centro urbano, às margens do Rio Sucuriú.
O empreendimento representa um investimento de US$ 4,6 bilhões, equivalente a aproximadamente R$ 25 bilhões, e tem início de operações previsto para o segundo semestre de 2027. Segundo a Arauco, a capacidade produtiva ao atingir plena operação será de 3,5 milhões de toneladas de celulose de mercado por ano.
A Valmet atua no projeto no modelo EPC (Engineering, Procurement and Construction), sendo responsável pelas principais ilhas de processo da fábrica: do pátio de madeiras ao sistema de enfardamento, passando pela caldeira de recuperação, sistema de evaporação e solução de automação integrada.
O projeto se insere num movimento mais amplo de expansão da indústria de celulose no interior do Brasil, especialmente no chamado “Vale da Celulose”, região do Mato Grosso do Sul que concentra investimentos de grandes grupos internacionais atraídos pelo clima favorável ao eucalipto, pela infraestrutura logística e pela disponibilidade de mão de obra.
A construção do Sucuriú, no entanto, também gerou debate ambiental: de acordo com reportagem do portal Mongabay Brasil publicada em 2025, o terreno do empreendimento se sobrepõe a uma área classificada como prioritária para a conservação da biodiversidade do Cerrado, com registro de espécies ameaçadas de extinção como o tamanduá-bandeira, o lobo-guará e o papagaio-galego.
Engenharia de escala: os números da fase civil
A logística de construção do Sucuriú já opera em dimensões industriais raramente vistas no Brasil. No coração da planta, a Caldeira de Recuperação teve o início de sua montagem antecipado em relação ao cronograma original e já acumula mais de 3.000 toneladas de aço em sua estrutura. O balão de vapor, fabricado na China e transportado por via marítima e rodoviária ao longo de quase três meses até chegar a Inocência, pesa cerca de 300 toneladas e mede 32 metros de comprimento.
O equipamento foi projetado para operar a 337°C e é descrito pela Valmet como o coração do sistema de geração de vapor da fábrica.
A montagem desse e de outros equipamentos de grande porte é viabilizada por um guindaste de 750 toneladas de capacidade. O equipamento foi responsável pelo içamento do Feedwater Tank, estrutura de 52 metros de comprimento usada no sistema de pré-aquecimento de água. Na Linha de Fibras, os digestores ultrapassarão 64 metros de altura, o equivalente a um edifício de aproximadamente 20 andares, enquanto os vasos de pré-impregnação, conhecidos como ImpBins, atingirão quase 45 metros.
Na área de Secagem, a cobertura do prédio principal vai proteger uma área construída de cerca de 30 mil metros quadrados. O interior da estrutura receberá mais de 25 mil blow boxes, dispositivos usados no processo de flutuação e transporte das folhas de celulose úmida, cujo transporte até o canteiro exigirá uma frota estimada em 480 carretas. Uma ponte rolante com capacidade para içar 75 toneladas fará a movimentação interna dos equipamentos. Já no Manuseio de Madeiras, a capacidade de picagem projetada é de 3.000 metros cúbicos de cavacos por hora, processados por peneiras com capacidade para 1.200 toneladas por hora.
A integração de toda a planta ficará a cargo do Sistema de Controle Distribuído (DCS) da própria Valmet, denominado Valmet DNAe. Segundo a empresa, o sistema processará 60 mil sinais de interface por meio de 1.004 núcleos de processamento. A Valmet afirma que essa configuração tornará o Projeto Sucuriú o ativo industrial mais digitalizado da história da indústria global de celulose.
Fase eletromecânica exige duplicar a força de trabalho
A partir de agora, o desafio deixa de ser predominantemente de engenharia civil e passa a ser de gestão de pessoas em larga escala. O cronograma prevê que o contingente de trabalhadores da Valmet no canteiro passe de 4.000 para 8.000 profissionais até setembro de 2026, o que implica a mobilização de até 600 novos trabalhadores por mês ao longo dos próximos meses.
No segundo semestre, as equipes iniciarão as chamadas montagens finas: instalação de redes de tubulação, suportes, válvulas e instrumentação, etapas que demandam maior precisão e qualificação técnica em comparação com a fase de caldeiraria pesada. A meta declarada pela Valmet é encerrar 2026 com progresso positivo nessa fase eletromecânica, de modo a garantir que as atividades de comissionamento e os testes de automação comecem dentro do prazo previsto para o início de 2027.
“Estamos transformando um projeto de alta complexidade em uma realidade operacional dentro de um cronograma rigoroso”, afirmou Francisco Gervasoni, vice-presidente de projetos da Valmet, em comunicado da empresa. Fernando Scucuglia, diretor de Celulose, Energia e Circularidade da Valmet na América Latina, acrescentou que o projeto foi estruturado desde o início com governança, planejamento integrado e gestão de riscos, o que, segundo ele, assegura a entrega dentro do prazo com os padrões de desempenho estabelecidos.
Para o setor de automação industrial, o Sucuriú representa um caso relevante de aplicação em escala de sistemas DCS de última geração, com processamento massivo de sinais e integração de controles avançados de processo (APC) em uma planta greenfield de dimensões inéditas. A entrada na fase eletromecânica marca o momento em que os projetos de instrumentação e automação saem do papel e começam a ser comissionados no ambiente real da planta.



