Na Hannover Messe 2026, realizada em abril na Alemanha, a Schneider Electric apresentou em parceria com a Microsoft um conjunto de capacidades que a empresa denomina “agentic manufacturing”, ou manufatura agêntica, um modelo operacional em que agentes de inteligência artificial atuam como participantes ativos nos fluxos de trabalho industriais, do projeto à operação.
O anúncio marca uma mudança de direção relevante na forma como grandes fabricantes de automação posicionam a IA no chão de fábrica.
A edição 2026 da Hannover Messe reuniu cerca de 110 mil visitantes e aproximadamente três mil expositores, com o Brasil ocupando pela primeira vez desde 1980 o papel de País Parceiro Oficial. O evento consolidou a inteligência artificial industrial e a automação por software como os temas centrais do setor neste ciclo.
Entre os anúncios do período, a colaboração Schneider–Microsoft ganhou destaque pela especificidade técnica e pelo alcance do que foi demonstrado: não uma promessa de fábrica autônoma no futuro, mas capacidades disponíveis para implantação imediata.
A Schneider Electric participou da feira no Hall 13, estande C34, e a Microsoft no Hall 17, estande G06, com demonstrações conjuntas da nova geração da plataforma EcoStruxure Automation Expert integrada aos serviços de IA do Azure.
O que é manufatura agêntica e como a plataforma opera
O conceito de manufatura agêntica, na definição apresentada pela Schneider Electric, refere-se à integração de agentes de software especializados em fluxos de trabalho industriais. Esses agentes são responsáveis por automatizar decisões de projeto de rotina, validar a lógica de controle antes de cada implantação e manter a rastreabilidade completa de engenharia desde a fase de concepção até a operação contínua da planta.
A base técnica da solução é o EcoStruxure Automation Expert, plataforma de automação por software da Schneider Electric que permite criar, simular e validar a lógica de controle uma única vez e executá-la em qualquer ambiente, seja on-premises, em edge computing ou em nuvem híbrida. A Microsoft complementa essa infraestrutura com os serviços do Azure AI, responsáveis por orquestrar, analisar e otimizar os processos industriais em tempo real.
Na prática, o que a combinação dessas tecnologias entrega é o colapso dos chamados “handoffs”: os pontos de transferência entre equipes e ferramentas que historicamente consomem tempo e introduzem erros nos projetos de automação. O engenheiro que projeta a lógica de controle, o técnico que a valida, o comissionador que a implanta em campo e o operador que a executa passariam a trabalhar dentro de um único fluxo fechado, com os agentes de IA gerenciando as transições e garantindo consistência ao longo de todo o ciclo.
Dayan Rodriguez, executivo da Microsoft, descreveu o modelo em declaração divulgada pela Schneider Electric: segundo ele, o objetivo é fechar o ciclo entre a intenção do engenheiro e a execução operacional real, automatizando decisões, validando antecipadamente e entregando pacotes de automação reutilizáveis que possam ser simulados e implantados de forma consistente em cloud e edge.
O que os dados revelam sobre o ganho operacional
O componente mais visível desse conjunto é o Industrial Copilot, assistente de IA desenvolvido pela Schneider Electric em parceria com a Microsoft e alimentado pelo Azure AI. Segundo dados divulgados pela própria empresa, o Copilot reduz em até 50% o tempo dedicado ao trabalho de configuração de controle e documentação de engenharia. Mudanças de linha de produção que antes demandavam semanas passam a ser concluídas em horas.
Esses não são ganhos marginais. Em operações industriais de médio e grande porte, o tempo de engenharia consumido em reconfiguração de sistemas é um dos maiores gargalos na resposta a mudanças de produto, manutenção corretiva e atualização de capacidade. A compressão desse ciclo tem impacto direto sobre a disponibilidade da planta e sobre os custos de mão de obra especializada.
O ponto que a Schneider Electric enfatiza é que o EcoStruxure Automation Expert permite que equipes padronizem a lógica reutilizável, validem a automação por simulação antes da implantação real, mantenham rastreabilidade ao longo de todo o ciclo de vida do sistema e escalem operações interoperáveis entre plantas e diferentes fornecedores de hardware.
Isso é especialmente relevante em ambientes industriais brasileiros, onde o parque instalado costuma misturar gerações e marcas distintas de equipamentos.
Além da parceria com a Microsoft, a Schneider Electric demonstrou na mesma edição da Hannover Messe colaborações com a Deloitte, que combina consultoria e gestão de mudança com as tecnologias OT da empresa, e com a AWS, onde o EcoStruxure Automation Expert e o soft dPAC, um controlador de automação programável baseado em software e sem dependência de hardware proprietário, foram demonstrados em operação do edge até a nuvem da Amazon.
A extensão dessas parcerias sinaliza uma aposta clara da Schneider Electric em posicionar a automação como camada de software, reduzindo a dependência de hardware específico e aproximando os sistemas industriais da lógica de atualização contínua característica do mundo de TI.
Para os profissionais e gestores de automação industrial no Brasil, o desenvolvimento levanta uma questão prática imediata: a adoção desse tipo de plataforma exige revisão das competências de engenharia disponíveis nas equipes. O perfil que opera sistemas puramente baseados em CLPs e SCADA tradicionais começa a conviver com uma camada adicional de IA aplicada, que demanda familiaridade com ambientes cloud, lógica de agentes e ferramentas de simulação integradas.
A Schneider Electric não divulgou cronograma específico de disponibilidade das novas capacidades do EcoStruxure Automation Expert para o mercado brasileiro. A empresa mantém operações industriais no país há mais de 70 anos, com cinco plantas fabris e atuação consolidada nos segmentos de distribuição elétrica e automação industrial.

